SELEÇÃO ACIDENTAL - Qual o papel do acaso na sobrevivência
e evolução das criaturas aquáticas.


MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA AQUAMAGAZINE Nº 14

Seleção acidental

Qual o papel do acaso na sobrevivência
e evolução das criaturas aquáticas.

No começo do Filme Procurando Nemo da Disney Pixar, uma barracuda dá um bote e abocanha todos os irmãozinhos do Nemo e sua mãe Coral. Esse trágico acontecimento é o começo de um forte relacionamento entre o pequeno Nemo, um jovem palhaço Ocellaris e seu pai Marlin. No mundo real esta relação seria outra. Se pai e filho palhaços se tornassem os únicos residentes de uma anêmona do mar, o pai logo se tornaria uma fêmea madura, e “seu” filho se tornaria seu parceiro. A verdade é muito mais estranha do que a ficção no caso do Nemo, e como este artigo irá revelar, sexo e reprodução no mar tem suas reviravoltas que não se encaixam em noções pré concebidas.

Peixes palhaço nascem hermafroditas, possuindo tanto o sistema sexual masculino quanto o feminino. O maior membro de um grupo de palhaços é a fêmea, e o segundo maior é geralmente o seu parceiro. Se houver outros palhaços da mesma espécie compartilhando a mesma anêmona, não apresentam influencia para o casal e acredita-se que sejam sexualmente inativos. A perda de um ou de outro do par, causa rapidamente uma reorganização no status do grupo, de modo que ou um novo macho ou uma nova fêmea se estabelecera para formar um par reprodutor. A possibilidade de um relacionamento de Édipo é baixa devido ao fato de que os recém nascidos dos palhaços são de hábito pelágico, um ponto sutil não mostrado no filme da Disney. Os recém nascidos são carregados por correntes marinhas a lugares distantes, de modo que pais e filhotes dificilmente compartilham a mesma anêmona. Em contrapartida, a possibilidade da formação de casais entre irmãos é alta, pois os ovos eclodem mais ou menos ao mesmo tempo e portanto os recém nascidos são levados e se instalam na mesma área. Além disso, a sobrevivência dos palhaços que estão se instalando depende da disponibilidade de anêmonas, o que causa grande concentração de peixes em poucas localidades. Assim incestos devem ser comuns entre peixes palhaço.

Essa tendência a formar pares entre irmãos cria um potencial de características indesejáveis ou defeitos genéticos nos filhotes. Para contrabalancear essa característica, a estratégia reprodutiva dos palhaços  utiliza o acaso como vantagem, e  faz uso de dois recursos que podem resultar em “fertilização acidental” e hibridização: tempo e proximidade. O tempo de desova é uma característica que pode ser afetado por vários aspectos tais como temperatura, comprimento do dia, níveis de luz, suprimento de comida e feromônios entre outros. Enquanto essas influencias externas realmente afetam o tempo de desova em peixes palhaço com relação a estação, as várias espécies tendem a desovar aproximadamente na mesma hora do dia, no final da tarde. Assim pode-se dizer que a desova deles é sincrônica. Como eles não desovam necessariamente no mesmo dia, uma verdadeira desova sincrônica poderia ser influenciada por informações químicas entre populações próximas espacialmente, ou puro acaso. O outro recurso que mencionei é proximidade. A razão pela qual a proximidade é importante é que a desova sincronizada na água com ninhos próximos um dos outros torna possível ao esperma de um par ser carregado e fertilizar os ovos de outro par. Assim um “hibrido acidental” pode ser criado. Essa possibilidade teórica foi provada por um experimento perfeito que, convenientemente, instalou-se por acaso.

Em uma fazenda marinha de peixes ornamentais, Oceans, Reefs, and Aquariums em Fort Pierce, na Florida, vários palhaços híbridos apareceram espontaneamente entre os filhotes criados de pares não híbridos. Os pares não tinham contato físico com os outros, mas a água era compartilhada devido a um sistema de filtragem central. Assim o esperma de um par teve a oportunidade de sair do aquário pelo dreno de descida de água e ser bombeado para outro aquário onde pode fertilizar ovos de outro par que estava desovando lá. 

Este tipo de evento não é um produto da criação em cativeiro ou algum tipo de abuso contra as leis da natureza. Ao contrário, a fertilização cruzada em palhaços pode e acontece na natureza com diferentes espécies que habitam o mesmo local ou dividem a mesma anêmona. É claro que uma vez que peixes palhaços fazem simbiose com anêmonas, e somente vivem com elas, e as anêmonas fazem simbiose com as algas zooxanthelas e portanto necessitam estar sob luz adequada, a localização e distribuição dos palhaços não é aleatória. É comum casais de diferentes espécies ocuparem a mesma anêmona quando estas são grandes. Algumas anêmonas se reproduzem vegetativamente por divisão, formando vastos campos com grandes quantidades de anêmonas que possuem grandes quantidades de uma ou várias espécies de palhaços. A proximidade dos casais é comum. Desovas no mesmo dia permitem a ocorrência de hibridização quando esperma de um casal é levado pela correnteza e fertiliza os ovos de um casal ao lado, assim como o pólen das flores que são levados pelo vento e fertilizam as flores. O leitor deve estar se perguntando, qual o objetivo de criar híbridos uma vez que estes podem ser estéreis e assim não trazer benefício nenhum a população? A verdade sobre os híbridos é que eles geralmente não são estéreis. A fertilidade é simplesmente uma característica, como cor, formato e tamanho que pode variar entre os filhotes. Os híbridos podem ser férteis, muito férteis ou estéreis. Dita a verdade, o leitor ainda deve estar se perguntando qual a vantagem da hibridização. A resposta é bem conhecida pela biologia e é chamada de reprodução cruzada. Para contrabalancear os efeitos que a reprodução entre irmãos pode causar, a hibridização oferece à população genes novos, de parentesco distante ou sem parentesco, aumentando o vigor, melhorando a adaptabilidade às mudanças ambientais, a resistência a doenças entre outros benefícios. Assim este acidente não é acidente de jeito algum. É um processo de conservação que evoluiu e é provavelmente o motivo pelo qual os palhaços desovam em sincronia. 

Os peixes palhaços botam e fertilizam seus ovos em uma superfície sólida próxima a anêmona. A desova leva por volta de uma hora, quando a fêmea deposita os ovos em fileiras sobre uma superfície plana enquanto o macho a segue fertilizando-os. Esse longo período de tempo permite grandes possibilidades ocorrer uma fertilização acidental. Outros peixes desovam de várias maneiras diferentes, algumas promovendo a hibridização e outras fazendo exatamente o contrário. Discutirei essa última maneira logo mais, mas vamos olhar primeiramente ao método de desova usado pela maioria dos peixes de recife:
a desova pelágica.

Peixes de desova pelágica desovam tipicamente ao anoitecer, subindo pela coluna de água e soltando seus gametas que são fertilizados no meio da água. Freqüentemente o local onde a desova ocorre é um pico ou uma projeção proeminente para fora do recife e geralmente há muitas espécies desovando mais ou menos ao mesmo tempo no mesmo lugar. Neste processo novamente vemos a proximidade e a desova sincronizada promovendo oportunidade de hibridização, e com certeza os híbridos acontecem. Devo voltar um pouco e mencionar que às vezes híbridos são produzidos quando o macho de uma espécie cruza com a fêmea de outra espécie, um processo conhecido como seleção de parceiros. A hibridização acidental não envolve a seleção de parceiros, lógico, pois a hibridização é de fato um processo que resulta do acaso. Esse processo acidental explica a existência de híbridos que não poderiam ser produzidos pela seleção de parceiros, tal como o cruzamento entre o Tinker’s butterflyfish e o Four-Spot butterflyfish, entre o Purple Queen Anthias e o Blue Eye Anthias, ou o cruzamento entre o Anjo Ciliares e o Anjo Tricolor. No caso dos primeiros, algo muito estranho deve acontecer. Os ovos de peixes de desova pelágica sobem, flutuando em direção à superfície devido a uma pequenina gota de óleo que lhes dá poder de flutuação. No entanto um ovo não fertilizado que flutuar pode, por acaso, cruzar o caminho de um casal em reprodução e ser fertilizado.

O Tinker’s butterfly vive em águas profundas e o Four Spot em águas rasas. O cruzamento híbrido deles é, aparentemente, produto desta ocorrência casual.

Híbridos férteis podem cruzar de volta ou retrocruzar com as formas “originais” de qualquer uma das duas espécies, ou com outras espécies. Em qualquer população encontram-se formas de aparência pura e formas híbridas. Os híbridos podem ser a primeira geração ou produto de posteriores retrocruzamentos. Alguns híbridos são só um pouco diferentes das espécies de seus pais. A seleção de parceiros ou a reprodução acidental podem produzir os primeiros cruzamentos de gerações e a seleção de parceiros ou a reprodução acidental estão envolvidas na integração dos genes dos indivíduos híbridos na população de peixes com aparência padrão.

Mencionei que alguns peixes desovam de um jeito que impede a hibridização. Por exemplo, o Royal Gramma, Gramma loretto constrói um ninho em uma “toca” no fundo de um buraco no recife e, além disso, preenche o ninho com filamentos de alga. A desova ocorre dentro da toca. Com essas providencias as chances do esperma de outro casal entrar e fertilizar seus ovos são praticamente nulas. Peixes que copulam como os Cavalos Marinhos e os tubarões, também usam um método que impede a hibridização acidental. Devo salientar que não se pode separar o impedimento de hibridização do impedimento da fertilização por um macho da mesma espécie. Em qualquer caso o impedimento assegura que os pais são o casal que desovou e não um vizinho qualquer. Quando a fertilização acidental é favorecida pelo método de desova, pode ocorrer não somente filhotes híbridos, mas também filhotes, frutos de ovos de um ninho que tenham sido fertilizados por muitos pais da mesma espécie, um processo chamado de “competição de esperma”, e proposto por Geoffrey Parker em 1970.

Meu primeiro encontro com esse conceito foi nas aulas de zoologia na Universidade da Flórida. Em um curso de Zoologia de Invertebrados tive a chance de participar de um projeto com a Dra. H. Jane Brockmann que estava estudando os hábitos de acasalamento do Horseshoe Crab, Limulus polyphemus. O que poderia ser melhor para um grupo de universitários do que estudar sexo na praia? Este curso inesquecível plantou a semente que fez a percepção da hibridização acidental como processo vir instantaneamente à minha mente quando a evidencia em peixes palhaço se apresentou para mim.

O acasalamento do Horseshoe crab é sincronizado com a lua cheia e nova, uma característica comum aos invertebrados marinhos. A desova ocorre durante a maré alta quando a população em massa, concentrada na linha da costa deposita seus ovos. A concentração de adultos que estão desovando em uma área estreita preenche os requisitos de proximidade e tempo, e é claro, o fato de que a desova ocorre na água dá chance ao esperma de mudar de lugar. Mas essas desovas não são orgias desorganizadas. Os Horseshoe crabs na verdade, formam casais que se acasalam. A fêmea é maior, como em peixes palhaços, e o macho segura nas costas da carapaça dela com pinças especializadas. Esses casais se formam longe da praia e conforme se movem em direção à praia encontram numerosos machos que não encontraram parceiras. Nesta brincadeira de dança das cadeiras, os machos que sobraram não tem lugar para sentar, mas seu impulso de reprodução é forte. Determinados a reproduzir quando é a hora certa, eles não desistem do jogo. Ao invés disso se tornam “machos satélites” que rodeiam os casais em desova, chegando a selecionar quais rodear baseados no tamanho da fêmea, e soltam seu esperma no momento exato para também fertilizar alguns dos ovos. Em 1987 quando meus colegas e eu estudamos essa ocorrência com a Dra Brockmann, podíamos somente especular sobre o sucesso potencial desses satélites. Quanto, de fato, eles conseguiriam fertilizar de longe, não estando no “lugar do motorista”? Mais recentemente a Dra. Brockmann pode utilizar técnicas modernas para fazer análises de paternidade dos ovos fertilizados de vários casais. Os resultados foram surpreendentes: Em média 40% dos ovos de um casal são fertilizados por satélites! A história é ainda mais complexa e o leitor que se interessar deve procurar a bibliografia sugerida no final deste artigo para ter uma perspectiva ainda maior sobre o que a Dra Brockmann e seus alunos descobriram.

Trago o assunto da competição do esperma porque ele se relaciona ao processo que descrevo neste artigo onde a fertilização pode ir alem das espécies ou ate gêneros, formando híbridos. A importância da hibridização para a evolução da vida é um assunto que ganhou grande reconhecimento em varias áreas da biologia nas ultimas décadas. Entretanto parece que ha uma percepção publica a respeito do assunto que põe tais coisas em uma categoria de menor importância para a evolução das “espécies”, como se fossem somente exceções sob circunstancias singulares. Na verdade sabe-se que o compartilhamento de genes é comum, um processo fundamental na evolução da vida na Terra, desde o princípio até os dias de hoje.

O termo “evolução reticulada” se refere a esse processo. As antigas “Árvores Genealógicas”, cladogramas que ilustram os galhos que se dividem em inumeras forquilhas, os antigos cladogramas da Arvore da Vida que ilustram as divisões com vários galhos estão sendo substituídos gradualmente por diagramas nos quais as “árvores” tem possibilidades de tanto as raízes quantos os galhos se conectarem em várias posições ao mesmo tempo, ao invés de ter um único ancestral comum pela raiz e pelos galhos. Digo serem gradualmente substituídos, pois as antigas árvores genealógicas são muito mais fáceis de serem entendidas, e se “encaixam” na nossa necessidade psicológica de separar as espécies em unidades definidas e claras. Essa separação remete a um ponto de vista inicial muito útil para explicar o aspecto da evolução, que permite distinguir espécies emergentes e que espécies distintas surjam, então nós a temos como ferramenta para descrever esse processo, mesmo que seja de forma imprecisa.

A hibridização é uma das muitas maneiras pelas quais genes podem ser compartilhados entre criaturas vivas. Isso é um resultado da reprodução sexual, e não são todas as criaturas vivas que são capazes de se reproduzirem sexualmente. Transferência horizontal de genes se refere a outras maneiras em que genes podem se mover entre criaturas vivas, que englobam ao menos três categorias diferentes: a transformação, que é um processo pelo qual bactérias “pegam” fragmentos de DNA que são encontrados no ambiente; a conjugação, que é quando longos fragmentos de DNA podem ser transferidos célula-a-celula através do contato entre bactérias não relacionadas ou até entre bactérias e eucariontes; e a transdução, que é quando a transferência de DNA é feita por vírus. Embora a transferência horizontal de genes não ser o objetivo principal deste artigo, é importante ressaltar que estes processos todos acontecem mais facilmente em ambientes aquáticos.

As plantas híbridas são resultado de um acidente devido ao método como a fertilização ocorre: o transporte de pólen pelo vento e por insetos. Como resultado da polinização cruzada, estes grupos de espécies conectados geneticamente são chamados de Syngameons. Estes grupos podem até incluir espécies de diferentes gêneros, algo descrito por Lotsy em 1925, e desde então publicado em inúmeros trabalhos sobre evolução.

As plantas simplesmente acabam por estarem próximas umas das outras em uma área. Para um taxonomista isso produz uma frustrante realidade: pois, após todas as espécies terem sido separadas existem indivíduos com características que não se encaixam nas definições e quanto mais de perto se observa as espécies procurando definir suas características, mais confusas elas parecem, simplesmente porque elas são misturadas. Para um taxonomista, perceber isso pode ser divino ou motivo de depressão. Será hora de parar, ou de mudar o ponto de vista e abrir uma nova porta para entender o processo da evolução? Para o governo oficial, que tem a responsabilidade de regulamentar o mercado de vida selvagem, a reprodução reticulada representa um problema intransponível. Leis são escritas e devem ser cumpridas com base em espécies bem definidas. O resultado desta necessidade humana por definições e cumprimento de leis pode às vezes ser uma distorção antiética da realidade e abuso de poder, mas não é esse o objetivo deste artigo.

Embora a hibridização em plantas tenha sido documentada há bastante tempo, os zoólogos só recentemente “enxergaram” o papel da hibridização na evolução animal. Esse mesmo processo ocorre com corais (Veron, 1997), por causa do mesmo método de reprodução deles, em massa sincronizada, que colocam seus gametas juntos com os gametas de corais de outras espécies e gêneros diferentes, formando uma grande sopa de inúmeras combinações. Essa conectividade na evolução dos corais pode ser ilustrada por uma rede-reticulada onde as espécies emergem por um tempo e depois cruzam com outras, formando syngameons e gerando novas espécies nesse processo. O processo é simples, mas os resultados tornam o estudo da evolução tão interessante quanto tornam a disciplina de taxonomia difícil.

Por exemplo: Algumas “espécies” de corais podem realmente ser o resultado do cruzamento de duas espécies distintas, ou até gêneros. Isso me lembra muito os infinitos tipos de Bromélias que podem ser feitos por cruzamentos. Nas espécies do gênero Acropora, é provável que muitos indivíduos desse mesmo gênero sejam de fato gerados por cruzamentos “acidentais” que ocorrem TODAS AS VEZES que a reprodução em massa ocorre. Conseqüentemente os gametas destes híbridos podem se misturar com outros, produzindo um vasto espectro de formas, com características que podem ou não dar a eles peculiaridades físicas distintas ou vantagens que facilitem sua adaptação ao ambiente onde se instalarem. Em alguns casos os híbridos podem ser estéreis, mas eles são produzidos pelas espécies “mães” cada vez que a reprodução em massa ocorre, portanto tecnicamente mantém as vantagens da recombinação de genes e a grande dissipação que resulta da reprodução sexuada, enquanto que, ao mesmo tempo, tem a capacidade de se reproduzirem vegetativamente pela fragmentação, colonizando e dominando novos habitats rapidamente.

Na maioria dos “conceitos de espécies”, as espécies são definidas por atributos, dos quais a habilidade de produzir híbridos é somente um. O fato de que híbridos são férteis é mais uma regra do que exceção, o que é surpreendente para a maioria das pessoas que acreditam que o oposto é verdadeiro. As vezes os híbridos tem uma “fraca” habilidade de reproduzir e frequentemente a reprodução entre dois membros de um mesmo cruzamento híbrido tem baixa fecundidade (especialmente se forem irmãos), mesmo considerando que eles possam retro cruzar com a espécie de um dos pais. As vezes os híbridos são estéreis. Outras vezes o “vigor dos híbridos” existe, e a fecundidade é excepcionalmente alta. Certamente há um grande número de incompatibilidades, isto é, cruzamentos impossíveis por várias razões. Mesmo DENTRO de uma espécie (e aqui me refiro não só a corais, mas a todos os animais) há indivíduos que não conseguem produzir filhotes facilmente, ou que não
produzem filhotes “fortes”.

O sucesso da reprodução de idênticos genéticos ou membros muito semelhantes dentro de uma população de corais de mesma espécie (isto é, entre clones e irmãos) é geralmente baixo. Já foi mostrado que cruzamentos com variedades distintas geneticamente dentro de uma única espécie pode ser um fator crítico para sua sobrevivência em longo prazo, o que sugere que esse processo deve ser considerado estratégias de conservação que almejem promover o futuro da recuperação dos recifes de corais.

Há inúmeros trabalhos científicos que descrevem o potencial para a hibridização em corais, alguns até defendendo o ponto de vista que essa ocorrência acidental é prejudicial e contra a seleção. Entretanto um estudo recente traz uma opinião diferente: a hibridização é vantajosa. A vantagem principal parece ser o cruzamento externo, como mencionei quando discuti peixes palhaço.  Para corais parece que tal mistura é a chave para sua habilidade em se adaptar a mudanças em seu meio ambiente. Híbridos de coral podem colonizar também habitats marginais, distintos daqueles das espécies de seus pais, portanto o processo é importante para estender a expansão, que pode expor os corais a parceiros compatíveis geneticamente, bem como isolá-los, promovendo o desenvolvimento de novas espécies.  A hibridização deve ser proporcionalmente mais freqüente em fronteiras periféricas de uma classe de espécies desde que possa haver menos indivíduos daquela espécie específica.

Os Corais parecem se esforçar para maximizar seu potencial de adaptabilidade ao meio ambiente, sem dúvida devido ao fato de que mudanças no meio onde vivem, às vezes geram condições extremas, que podem ser letais a eles. A reprodução em massa parece ser resultado de muitas estratégias, sendo a hibridização apenas uma delas. A reprodução em massa dos corais acontece justamente quando a temperatura da água e o comprimento do dia os colocam, no mínimo em risco de “bleaching”, que é o seu esbranquiçamento, a perda das algas simbiontes,  (zooxanthelas), que são necessárias a sua sobrevivência. No pior dos casos, os corais correm risco de morte rápida devido ao choque do aquecimento, que é acentuado pela luz do dia. Há bactérias que se tornam extremamente perigosas em altas temperaturas, que também estão envolvidas na morte rápida dos corais quando a água fica quente e o dia mais longo.

Embora seja comum entre os animais e as plantas desovarem e se reproduzirem sob estresse, por que motivo os corais desovam em massa exatamente quando sua sobrevivência (e conseqüentemente a sobrevivência de suas delicadas larvas) estão em risco extremo? É claro que as larvas produzidas durante esse evento devem ser capazes de sobreviver ao estresse da alta temperatura. Isso significa que contanto que os pais sobrevivam à desova, a sobrevivência de sua cria (seja ela híbrida ou não) em águas quentes promove um meio rápido de adaptação a temperaturas que sobem. Assim existem dois pontos favoráveis a reprodução em grupo: a reprodução cruzada que produz variações e descendentes fortes e a exposição ao estresse, que seleciona eliminando os mais fracos.

Mas não são todos os corais que participam da reprodução em massa. Esse tipo de reprodução acontece apenas em alguns lugares, e as maneiras de reprodução DA MESMA ESPÉCIE são diferentes em outras regiões. Até mesmo em regiões onde há a reprodução em massa, existe muita variedade em relação ao “tempo” do momento da reprodução. Sem dúvida o momento da reprodução sincronizada é algo que não ocorre por acidente, portanto cruzamentos acidentais são resultados intencionais.

Mais um exemplo de hibridização acidental em invertebrados que vale a pena mencionar é um que descobri muitos anos atrás quando coletava “snails” (caramujos) herbívoros para o meu aquário. Descobri um snail que parecia ser um hibrido entre Astrea tectun e Turbo castanea. Esses snails ocorrem no mesmo habitat (ambiente raso com algas tipo “grama”), e se reproduzem dispersando os ovos, portanto existe a possibilidade de um cruzamento hibrido ocorrer. A questão é: Por que este não é um hibrido comum? Eu vi apenas um espécime em muitos anos de procura. Meu palpite, baseado em observações e nos princípios da hibridização acidental, é que: assim como os princípios requeridos para a hibridização acidental ocorrer, esses snails não se reproduzem ao mesmo tempo ou em épocas próximas, embora vivam no mesmo habitat. Eu sei que a Astrea se reproduz na lua cheia e nova, e que escala pedras altas, raízes de manguezal, paredões rochosos ou algas para liberar seus gametas na água. Não tenho certeza se o Turbo faz a mesma coisa, pois nunca o observei fazendo isso na mesma época em que a Astrea desova.  

Seleção acidental...? O leitor deve se perguntar como esse conceito se encaixa na teoria da evolução natural de Darwin, se a seleção de parceiros não ocorre. Como é possível o acaso estar fazendo a escolha ( a seleção)? Nos corais não é difícil enxergar as vantagens da hibridização acidental uma vez que eles não formam casais para se reproduzirem. Sem duvida a desova em massa promoveu uma maneira de maximizar o potencial de adaptação dos descendentes. Alem disso liberar gametas “ao léu” nas correntes marinhas os levam a serem fertilizados em primeira instancia, e depois a colonizarem tanto lugares próximos quanto distantes. Para os vertebrados, que possuem a habilidade de escolher um parceiro, o conceito da fertilização acidental parece um pouco mais difícil de ser compreendido, mas é certamente um fato importantíssimo para as populações de peixes, e em sua maioria, eles não parecem se opor a esse fato. A sincronia nas suas desovas parece promover isso como no caso dos corais. Aparentemente existe uma urgência na necessidade de cruzamento de gametas para manter o vigor nas espécies aquáticas. Gostaria de ressaltar que o termo “competição de espermas” é utilizado quando se fala de reprodução pelágica, mas nem sempre. Pois desde que grandes quantidades tanto de ovos quanto de esperma são liberados na água como no caso dos corais e dos peixes pelágicos, ovos e esperma têm a oportunidade de serem fertilizados por um similar de sua espécie. Portanto é necessário outro termo para esse processo especial que permite a fertilização acidental. É interessante mencionar que muitos tipos de peixes formam casais por longos períodos de tempo, chamados “monogâmicos”, porém seus filhotes podem ser de mais de um pai ou híbridos, devido aos processos descritos neste artigo.

Quanto às espécies aquáticas que evitam a fertilização acidental, estudos mais aprofundados podem mostrar que elas empregam formas especiais (atrativos químicos, talvez) de “reconhecer” qual parceiro escolher, ou que, por alguma razão,suas populações não se favorecem da reprodução cruzada. 

POR Julian sprung* - Tradução Cassio Ramos 

Design Ricardo André  -  Fotos Leonardo Sposito

MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA AQUAMAGINE Nº 14

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