Manejo para reprodução do peixe palhaço (Amphiprion ocellaris) em cativeiro


Monografia de pós-graduação da PUC- Sorocaba, autor: Aristarco Sanchez

Manejo para reprodução do peixe palhaço (Amphiprion ocellaris) em cativeiro.

Introdução

O aquarismo é um hobby consagrado em todo o mundo e tem como foco principal espécies de cores, formas e comportamentos chamativos e graciosos. Acredita-se que cerca de 1,5 a2,0 milhões de pessoas no globo mantenham aquários marinhos (Wabnitz et al ., 2003), constituídos basicamente por espécies associadas aos recifes (Wood, 2001).
Mundialmente são comercializadas cerca de 1.500 espécies de peixes marinhos para fins ornamentais, com uma estimativa de 20 a 30 milhões de indivíduos por ano (Wood, 2001; Wabnitz  et al., 2003),  representando cerca de 10% do total de organismos comercializados para o mercado de aquariofilia (OFI,2003).
O mercado de peixes ornamentais marinhos e de produtos para a aquariofilia é uma atividade consolidada, que movimenta por ano cerca de 500 milhões de dólares (Moore & Best, 2001; OFI, 2003), sendo de grande importância econômica em muitas regiões, principalmente nos países em desenvolvimento (Andrews, 1990; Cheong, 1996; Davenport, 1996; Chapman et al, 1997).
Sob a ótica conservacionista, um fator de relevada importância do comércio de peixes ornamentais marinhos é a origem dos animais, uma vez que a grande maioria dos exemplares comercializados é extraída do ambiente natural e o cultivo limita-se de 1 a 10% das espécies. Já o mercado de peixes ornamentais de águas continentais, por sua vez, trabalha com um grande número de peixes e de espécies cultivadas, em torno de 90% (Whittington et al, 2000; OFI, 2003).
Outra forma de minimizar a pressão sobre os estoques naturais seria o cultivo dos principais animais em sistemas fechados ou semi-abertos (Hoff, 1996).
O primeiro peixe marinho reproduzido em cativeiro com sucesso foi o peixe palhaço, Amphiprion  spp que continuam a liderar a lista dos passíveis de reprodução em cativeiro. Atualmente, cerca de trinta espécies marinhas são reproduzidas nestas condições, entre elas Anisotremus virginicus, Bodianus rufus, Mycrospathodonchrysurus,  Pomacanthus arcuatus,  Pomacanthus paru,  Gobiosoma oceanops, Centropristes melanus e  Dascyllus trimaculatus (Hoff, 1996; Wabnitz  et al., 2003).
Sabe-se que o cultivo por si só não soluciona o problema, mas o peixe produzido em cativeiro é preferido por lojistas pelo produto de melhor qualidade, fácil adaptação em aquários além de incentivar a não-captura.   A criação de peixes surgiu como atividade básica para suprir necessidades alimentares. Na China, entretanto, há mais de três mil anos, já se cultivava peixes em viveiros para fins ornamentais. Na sociedade ocidental esta atividade começou a se desenvolver na Europa, no século XVII, onde o primeiro aquário público foi construído em 1853  (Mills, 1998).
Os peixes deste gênero nascem todos machos, tendo a capacidade de tornar-se fêmeas de acordo com a necessidade da colônia ou do local onde eles habitam. Essa transformação é hormonal. Geralmente, eles permanecem em pequenas colônias nas anêmonas, onde habitam uma fêmea que era o maior macho da colonia com um harem de machos. O macho maior da colônia forma par com a fêmea da colonia. O par formado na colônia permanece unido durante toda a vida e defende ferozmente o seu território. Esta característica tem o nome de hermafroditismo protândrico. Este gênero de peixe é ovíparo.                                                                                                                                  

Mesmo liderando a reprodução em cativeiro, as espécies do gênero Amphiprion continuam sendo capturadas do meio ambiente e sendo comercializadas, fazendo com que diminua a quantidade de espécimes soltas na natureza. É de suma importância que a reprodução em cativeiro das espécies do gênero Amphprion continue crescendo, principalmente a espécie que estudei o método de manejo para a reprodução (Amphiprion ocellaris) que é a espécie mais procurada por aquaristas marinhos.
O objetivo deste trabalho é desenvolver em 180 dias a reprodução do peixe palhaço (Amphiprion ocellaris) em um método especifico.

2. Materiais e métodos

1 Aquário de vidro de dimensões 40x50x38cm3 (anexo II)

1 Filtro com esponja

1 Aquecedor com termostato (300w)

1 Skimer

2,45 Kg Sal marinho sintético (sal da marca RED SEA)

76 L de água de reverse osmose + sal da RED SEA)

Cascalho de calcário e pequenas conchas

2 azulejos de dimensões 20x15 cm2

1 Termômetro

1 Phmetro

1 Casal adulto de Peixe-palhaço

20 porções de artêmia salina viva (300ml cada)

1 pote de ração Tetra color tropical granule (marca Tetra).

1 pote de ração Tetra marine flakes (marca Tetra).

1 pote de ração Tetra min tropical (marca Tetra).

Patê (gelatina sem sabor, ração tetra color tropical granules  peixe, ovas de peixe, camarão, vôngole, espinafre e  spirulina). Selecionamos dois peixes palhaços Amphiprion ocellaris (anexo I) do laboratório de reprodução para se tornar uma matriz, fazendo com que o método faça a matriz desovar. A matriz de Amphiprion ocellaris (fêmea com 10 cm e o macho com 7,5 cm) foi observada durante 180 dias e durante este período foram observadas duas desovas, sendo que as duas nos ultimos 30 dias do trabalho. 

2.1 Escolha da matriz

Para escolha da matriz (anexo I) foram observados 3  itens:

1º. Os dois peixes deviam nadar perfeitamente, quando nadam as nadadeiras devem estar todas abertas e inteiras. O peixe não deve estar respirando rapidamente, ofegantes.

2º.  A cor da espécie estudada é uma cor viva com laranja claro ou escuro (depende do padrão) e a parte branca não é opaca e não devem ter machas de outras cores.

3º.  Reparar minuciosamente pelo corpo do peixe se não há algum parasita externo. 

  2.2  Aquário da matriz

A matriz de Amphiprion ocellaris foi mantida em um aquário (anexo II) de 0,5cm de espessura de vidro (40x50x38cm3) com76 litros com tampa de vidro, com uma bomba de circulação e com10 cm de espessura de substrato de halimeda e um azulejo comum sobre o substrato e um termostato (300 W) com temperatura média de 26º C.

Nos 180 dias de estudo, a concentração de amônia e nitrito sempre em torno de 0 e a densidade sempre aproximadamente 1021.

A iluminação no caso era natural por estar em um local onde tinha janelas com vidros grandes.

O aquário da matriz estava em um lugar isolado, com o mínimo de movimentação ao entorno dele.

A temperatura, densidade, amônia, nitrito e pH devem ter a menor variação possível para um bom desempenho da matriz, focando assim a reprodução.

2.3  Manutenção do aquário

Cada 10 dias foi trocado 15% da água do aquário por água salgada estéril/limpa (água de reverse osmose + sal da RED SEA) e a água que era evaporada dos aquários durante os 180 dias foi reposta com água de reverse osmose. Foram feitas 18 trocas de água.

A espuma, o skimmer e o vidro frontal foram limpos cada 10 dias, só foi limpo o vidro frontal para que seja possível a visualização da matriz e da desova.

2.4 Alimentação da matriz

A alimentação da matriz era feita quatro vezes ao dia (por uma das duas pessoas a serem autorizadas a fazer a alimentação)

1ª alimentação era por volta das 8 horas da manhã que era uma mistura entre três rações.

2ª  alimentação por volta das 11 horas da manhã com artêmia salina viva.

3ª alimentação era feita as 2 horas da tarde com um patê feito no laboratório.

4ª alimentação era feita as 5 horas da tarde novamente com o mix de rações.

Os alimentos citados para alimentação da matriz, como os in natura e os alimentos vivos, estimulam o apetite dos peixes, fazendo com que eles cresçam bem saudáveis e desenvolva o aparelho reprodutivo rápido.

Qualquer sobra de comida foi evitada, pois poderia apodrecer na água, podendo fazer com que a matriz fique com imunidade baixa alimentando-se desta comida podre ou fazer com que a água não fique de boa qualidade para uma matriz desovar, podendo assim ficar vulneráveis a doenças e parasitas oportunista.             

3. Resultados e discussão

Anjos et al.,(2005), em um estudo com cardinal  tetra observou que dos nove grupos que desovaram durante 240 dias, dois grupos obteve 2 desovas e um obteve 3 desovas. No meu estudo com a matriz Amphiprion ocellaris desovou 2 vezes no período de 180 dias (anexo IV e VI).

Geiser et al.,(1986), relatam que exemplares de cardinal tetra que se reproduziram em cativeiro apresentaram períodos de desova de8 a10 dias, com um máximo de 14 dias, o intervalo entre a primeira desova e a ultima foi de 34 semanas. Neste estudo a matriz de peixe palhaço (anexo I), nas duas desovas em cativeiro foram concluídas no mesmo dia.

Anjos et al.,(2005), os peixes cardinais tetra selecionados para reprodução apresentavam gônadas em fase de desenvolvimento avançado (maduras). No estudo do peixe palhaço, a matriz não apresentava gônodas desenvolvida mas a matriz estava formada. Com relação ao dimorfismo sexual aparente, tanto o cardinal tetra como o peixe palhaço em estudo apresenta dimorfismo entre os sexos, relacionado ao tamanho do corpo, sendo as fêmeas maiores que os machos. Estas características permitem distinguir o macho e a fêmea.

Segundo VAZZOLER (1996), é importante distinguir entre fecundidade por lote (número de ovócitos eliminados a cada desova) e fecundidade por período reprodutivo (número de total de ovócitos eliminados durante um período reprodutivo). Os resultados deste trabalho foi de 541 (anexo IV) e 589 ovocitos (anexo VI).

Câmara (2004), cita no trabalho com acará disco que a média de ovócitos de cada postura foi de 536 ovos. A média das duas desovas observadas da matriz de peixe palhaço foi de 565 ovos.

Chellappa et al.,(1997), os padrões comportamentais descritos a partir do estudo com peixe disco (Pterophyllum scalare), durante a reprodução, deixam claro que a estratégia reprodutiva desta espécie é caracterizada principalmente pela territorialidade. O mesmo observou-se no comportamento da matriz de peixe palhaço durante a reprodução, o casal é muito territorialista e agressivo, principalmente a fêmea.

Em trabalho com peixe disco (Pterophyllum scalare), a preferência por folhas largas de plantas aquáticas como substrato mais adequado à desova, seguida da preferência por tubos de acrílico que faziam parte do sistema de aeração, pode estar relacionada com a qualidade do substrato para maior sobrevivência dos ovos e larvas, em função da maior superficie para conter a massa de ovos e maior oxigenação, uma vez que se não houver uma oxigenação adequada os ovos podem correr o risco de serem contaminados por fungos patogênicos e tornarem-se inviáveis (BOTELHO et al.,1985). No meu estudo, concluiu-se já estudada em outros trabalhos a preferência do peixe palhaço de desovar no azulejo quando oferecidos dentro do aquário, sendo que poderiam desovar no skimmer ou no vidro. Acredita-se que desovem no azulejo por ter a forma de uma “casa”, trazendo maior segurança para a desova (exemplo anexo IV).

4. Conclusão

Com o resultado deste trabalho durante os 180 dias, conclui que para obter a reprodução da espécie Amphiprion ocellaris em laboratório é extremamente necessário o manejo da matriz com menos estresse possível, com uma alimentação adequada e com mínimas variações dos parâmetros (densidade, pH, amônia e temperatura). 

5. Referências bibliográficas

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ANDREWS, C. The ornamental fish trade and conservation.  Journal of Fish Biology. v.37a, p. 53-59, 1990.

BOTELHO, G. & A.B. ABREU. 1985. Doenças e Tratamento dos Peixes Ornamentais. São Paulo, Nobel, 125p

Cacho, M. S. R. F., Chellappa, S. Yamamoto, M. E. Comportamento reprodutivo do acará bandeira, Pterophyllum scalare Cuvier & Valenciennes (Osteichthyes, Cichlidae). Revta bras. Zool. 16 (1): 653 • 664, 1999.

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CHAPMAN, F.A., FITZ-COY, S.A., THUNBERG,  E.M. E ADAMS, C.M.  United States of America trade in ornamental fish. Journal of the World Aquaculture Society. v.28, n.1, p. 1-10, 1997.

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